Realidade aquarelável

Uma coisa que me chama a atenção nas aquarelas é a plasticidade das cores. Nada se parece mais com o nosso mundo interior como as pintures criadas com essa técnica. Escrevi, melhor dizendo, digitei errado a palavra pintura, pensei em apagá-la mas percebi que parece uma aglutinação mal feita das palavras pinturas e pictures, deixei  assim porque aqui, mon ange, o subconsciente é quem manda.

Abaixo a ilustração é de Lora Zombie e amo muito toda ela. Essa ilustradora Russa foi um achado incrível pra mim. Ela une crítica, subconsciente e outros elementos das técnicas em aquarela com alguns detalhes que só tinha visto em formato vetorial.

Falando nisso depois irei em outro post falar sobre a diferença entre escrever e digitar, e entre pintar com as mãos e pintar com ferramentas e softwares específicos.

A garotinha na figura abaixo diz: “ama tudo isso agora?” enquanto o personagem símbolo da marca vomita.

Os personagens Disney possuem uma aura sinistra. São tão bem elaborados que ficamos pensando se eles existem em algum mundo paralelo ao nosso. Mesmo que o mundo real seja um inferno, a infância da atualidade ainda recebe a oportunidade de adultos e crianças serem crianças.

O herói americano salva o mundo, ou o dissolve em ruína e morte? Não se constrói um império sobre caveiras. O herói aqui representado por Mickey celebra a guerra pela infância, ou a infância estaria sendo morta? Diante de uma bandeira em frangalhos num ambiente mórbido e tóxico o mundo infantil estaria mascarado? A felicidade seria fábula? Pelo menos por enquanto entre bombas e corrupções,  no nosso pobre mundo real, ninguém é feliz pra sempre.

 

mickey

Abaixo, na imagem, pensei que era o Freud sendo beijado por gansos, mas na verdade parece que é Tchaikovsky, talvez uma referência a sua obra Lago dos Cisnes.

Quanto aos gansos ou cisnes, pelo menos pelo Google tradutor, swan significa cisne, tanto em francês quanto em inglês. Me levando a pensar No caminho de Swan,  de Proust, que por sua vez no caminho do cisne, ou no caminho do poeta, que seria uma outra significação para essa palavra. Proust em no Caminho de Swan, coloca um personagem que parece sentir a falta do beijo da mãe, sentindo ciúmes dela porque outra pessoa está competindo ou impedindo que ela tenha o beijo de boa noite da mãe só pra ele.

Repare que dois gansos colocados de frente formam um coração, a criança em Proust estaria sem a sua metade no amor e o caminho escolhido por Proust é o do poeta: curvo, com ondulações, nunca indo direto ao ponto, por mais que a objetividade seja direta ela nunca será mais direta que a subjetividade do poeta quanto mais ele não diz as coisas como elas são, mas como elas estão dentro de si, culminando em flores no momento do chá, imagem que lembra muito as coisas das imagens pintadas em aquarela, plasticidade  que parece ser elevada ao praticamente infinito nessa forma da pintura.

Essa daí a seguir não tem como não rirmos dela. Todo mundo parece gostar de zoar um pouco o Homem-aranha. E se você for parar e pensar, ele baila nos arranha céus ao som da música tema: Spider man. Imagine ele soltando teias e com aquele saiote de bailarina. Aliás, imaginem ele saltitando entre os prédios com a música  tema  dele no ritmo de Lago dos Cisnes.

Enfim, para a ilustração abaixo dei o nome de “Homem-bailaranha”. Acho engraçado a maneira com que zoam e fazem memes com ele.

Na figura de baixo está escrito: “Todos os seus amigos são falsos”.

 

O que devemos pensar do conceito de amizade hoje em dia? Os amigos são aqueles que se fazem presentes, mas não devemos enlouquecer achando que eles, e nem mesmo nós, devemos ficar grudados o tempo todo um no outro.

Amigos são presentes? Brinquedos não são. Alguns seriam os pequenos ursinhos amigos de urso na vida da gente e nós é que acabamos virando brinquedos nas mãos de muita gente. Amizade e gente não são brincadeira.

Amizade é coisa rara. De certa maneira ela pode ser cultivada em toda parte. Uma maneira de conseguirmos bons amigos é sermos sempre honestos, enfim, verdadeiros e, claramente devemos ter nossa privacidade, mas isso já é assunto pra outros debates. Precisamos ser de verdade pra nós mesmos e não a verdade que os outros criam sobre nós.

“Não lhe direi as razões que tens pra me amar, pois elas não existem. A razão do amor é o amor.” O pequeno príncipe.

Eu chamo essa imagem de “Amy Paintyhouse” de brincadeira com o nome dela. A cantora talentosa nos deixou a voz como uma estrela que mesmo após ter se extinguido ainda deixa sua luz chegar em lugares distantes de nossa alma.

Coisas incríveis acontecem bem perto de nós e nem percebemos que a maior pesca que pode haver na vida é a tentativa.

Seria uma mancha com uma forma feminina ou seria uma menina atrás do lençol realmente? No entanto é só um desenho. Mas o que os olhos veem é sempre a realidade?

“Olá senhor bosta”; “Olá, bosta de fotógrafa”. Esse seria um daqueles momentos em que a coisa desenhada (a bosta) coisifica a personagem humana figurada na imagem de uma menina com uma máquina de fotografar?

 

Quando estamos tristes a nossa imaginação é o que resta para sairmos de momentos difíceis. Sejamos imaginativos de maneira que para cada não que a vida nos dê, criemos vários sins.

A nudez humana consiste em ser livre pra voar e se adaptar aos fios da modernidade.

O ateliê do artista é a sua colmeia e sua arte o seu mel. Operárias são todas as suas inspirações e a rainha a sua ideia materializada na obra de arte que vier a produzir.

Essa é a Mulher Maravilha sendo humana. A maravilha da Mulher Maravilha é que na imagem ela está descontraída mostrando seus super poderes de fazer caretas como toda criança. Ainda que os super-heróis sejam incrivelmente fortes ficcionalmente suas características humanas são o que talvez mais fortemente encanta adultos e crianças.

E, para terminar, deixo a seguir algumas imagens da autora das ilustrações que apresentei acima.

Lora e seu catiorineo.

Lora e seu vestidineo de pilulas.

Lora, passarineo e ratineos.

 

 

 

 

 

 

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Um rio sem margem

Inicialmente em algum lugar o rio tinha um início e se estendia desde seu início até a continuidade desse início.

Rômulo Pessanha (fanzine marginal)

Hoje venho trazer mais um post do blog skrautskrift (fora do ar). Pra escrever essa história me inspirei no conto do Guimarães Rosa “A partida do audaz navegante“, do seu  livro Primeiras Estórias.

Precisamente não me lembro de nada desse conto. Preferi ficar apenas com as maneiras de falar das personagens, e é claro que nunca chegarei aos pés de um Guimarães Rosa. Algumas palavras também tirei desse mesmo conto do autor.

***

 

Viajantes

Sinopse: duas crianças acostumadas a fazerem longas viagens espaciais acabam encontrando o planeta Terra em seu estágio final de deterioração e não há mais ninguém habitando o lugar antes azul e cheio de vida e que  hoje se encontra nas tonalidades ofuscantes das areias quentes do deserto do Saara, que é o que todo o planeta mais se parece agora. Ao fim da visita ao planeta, Lanai e Joris descobrem o verdadeiro tesouro da vida: o amor.

Ao amor e além.
Rômulo Pessanha (postado em 03/06/2016 no blogue skrautskrift: significa caligrafia em islandês)

Lanai: esse planeta é solidão, é tristeza total, só que do lado de fora da gente e em toda parte.
Joris: será que tudo sempre foi assim. Assim quente, sem ninguém, sem vida?
Lanai: acho que pode ser igual a nossa vida ou a vida das pessoas até encontrarem o seu oásis, um ponto final que se apresentaria aos nossos sonhos como imagem diáfana, real, impalpável como as areias deste inóspito lugar.
Joris: certamente a vida é como areia. É palpável, maleável gozo, instante de ventura e criação.
Lanai: jogaremos um jogo então?
Joris: iremos. E em que consiste?
Lanai: você seria um cavaleiro em busca de aventuras e eu seria aquela que cuida da paz, a jovem donzela das forças sagazes daqueles que fazem as pazes.
Lanai: então, que comecemos as escaramuças.
Lanai: mas que figura altaneira e impávida seria aquela a se aproximar do alto daquele monte de cinzas arenosas?
Lanai: sim, é a figura do destemido cavaleiro, afrontoso e aventureiro, nascido desde tempos primordiais de sua gênese imemorial para encontrar sua princesa linda e bela, a qual dedicará sua vida, e somente a ela ser leal, para viver em paz celestial esse amor se fará eternizado na forma de luz a brilhar, a viajar, mostrando que mesmo após, ainda haverá o depois e sucessivamente assim.
Lanai: Quem vem  altaneiro cavaleiro, lá? Ah! Sim! Morro abaixo, tu, cavaleiro, alto! Tremei!
Joris: sou muito conhecido o destemido e o desconhecido é meu prazer. Sangue nas vestes, suor nos cabelos emaranhados pelo tormentoso vento quando a ventar está, me direciono aos caminhos por onde há tormenta. Quanta vida jogada fora, vidas desperdiçadas em maneiras escaramuçadas. Quero a ventura e toda sua graça para que a vida seja luta, mas sem guerra inglória e sem desgraça.
Lanai: oh, dorado cavaleiro, conquistaste meu coração com tão honesto falar, belo, se elogio, antes seria tão lisonjeiro de o receber. Terminemos as guerras. Ninguém quer elas.
Joris: Lanai, veja, uma construção.
Lanai: o que seria?
Joris: veja essas figuras na parede.
Lanai: douradas.
Joris: e por trás das imagens das crianças aladas?
Lanai: não sei.
Lanai: venha, vamos ficar aqui fora, temos que ir embora já está ficando muito tarde. Até a tinta azul que coloquei no meu cabelo parece estar derretendo.
Joris: Eu gosto dos seus cabelos vermelhos, são tão bonitos, não sei porque você usa essa cor.
Lanai: é porque está na moda, você não entende. Todas as garotas estão usando agora.
Joris: Lanai, eu tirei isso da bolsa de minha mãe, quero que você use, que fique com você, lembrança de nossas viagens, uma tira de camurça, macia, no tom arenoso de nossa pele, solitária, acompanhante dos sutis viajantes, percalços na pele são os sentimentos do amor, penso eu.
Lanai: muito obrigada, Joris, delicadeza sua, mas sua mãe não notará?
Joris: não me importo, o mais importante é pensar em você.
Lanai: agora me sinto mais quente que essa areia. Venha Joris, tive uma idéia, quero me despedir deste lugar antes de irmos!
Lanai: Joris, fique do meu lado e contemple a luz branca que flui do alto desta abóbada, esta construção é maravilhosa, não acha? Pesando estar destruída e abandonada, é linda. Vamos embora.
Lanai: estou com medo!
Joris: eu estou aqui!
Lanai: porque estamos de mãos dadas?
Joris: acho que fizemos uma descoberta:*(observação).

 

*Observação: a partir desse trecho eu não consegui terminar a história.
Continua …

O mundo que pode ser lido

Atualmente vivemos numa explosão de publicações de livros de todos os tipos. Muitos autores, muitas editoras e provavelmente, porém, nenhum novo clássico.

Quantidade não significa qualidade, mas todo mundo gostaria de ter escrito pelo menos um livro na vida. O livro possui uma aura de respeito, de importância que nenhuma tecnologia atual conseguiu por enquanto substituir.

Curiosamente o livro enquanto objeto físico utiliza muito das tecnologias recentes sem perder sua característica de ser um objeto físico, de papel e que pode ser lido sem ligar numa rede elétrica.

Quanto ao conteúdo, os livros foram transpostos para aparelhos de leitura para aqueles que possuem muitas obras e desejam armazenar uma grande quantidade de informação num único e pequeno objeto.

Muitas obras importantes já foram escritas. O importante não é tudo que já foi escrito, mas ler aquilo que modificou internamente o leitor e o fez pensar de algum modo. Ainda que todos os habitantes do planeta escrevessem um único livro, ainda assim, ninguém conseguiria ler o livro que cada um escreveu.

Quantidade de livros lidos não significa qualidade. O importante é o acervo que conseguimos montar ao longo de nossas vidas. Mesmo que só tenhamos lido um único livro o mundo já está descoberto e desvendado em todos os seus mistérios. O importante é sabermos que nada sabemos, e que, aos poucos, os dias que passam são como folhas de uma nova página das nossas vidas. A leitura, a escrita e a vida são coisas únicas e subjetivas.

A seguir deixo dois vídeos do que considero o melhor canal literário até o dia da postagem deste post.

Carmem Lucia é bibliotecária e também é formada em letras. As suas leituras são substanciosas e com argumentos certeiro, capta a verdade de cada obra que lê. As suas resenhas são riquíssimas e recomendáveis para aqueles que querem aprender a fazer as suas.

Inicialmente queria deixar somente o vídeo dela falando sobre o livro Grande sertão: veredas, mas depois ao assistir o vídeo em que ela fala do Banquete, de Platão, achei que esses dois livros podem ser estudados comparativamente, na minha opinião parece haver uma relação entre a obra de Guimarães Rosa e a de Platão e certamente entre várias outras também.

 

No começo era o choro …

Cuidar é uma coisa difícil. Parece difícil porque para aqueles que desejaram ser papais ou mamães a impressão que dá é que tudo parece difícil. Isso pode acontecer por causa da ideia enraizada de que adultos sabem tudo, mas não é bem assim que as coisas se dão na vida.

Por mais adultos e amadurecidos que as pessoas possam ser ou se tornarem, a vida mostra que sempre temos algo a aprender com o outro, porque o outro, e só ele, possui os meios de poder proporcionar a nós determinado aprendizado específico.

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Cuidar de crianças seja ela um filho biológico, ou não, é uma experiência única e faz com que o adulto com o passar do tempo só possa aprender a cuidar de um filho tendo um. Ter um filho pode ser um caminho que nos leva a entendermos que as crianças nos ensinam que coisinhas pequeninas têm vida própria e muita vez não podemos entender os sentidos de suas linguagens, eles, porém, conforme crescem também percebem que o mundo não é um conto de fraudas, digo, fadas.

QuartoNoite

Como todos sabem que cuidar de crianças é um trabalho manual, artesanal e sempre é preciso muita sensibilidade nas mãos dos artistas que precisam cuidar da casa ou sair para prover o melhor material para o desenvolvimento de seus futuros artistas, que nem sabem o que é arte e já fazem com maestria a arte digna do mais louco e bagunçado ateliê.

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Então os pais percebem que os seus filhos possuem fases, não como as da lua, mas talvez como a das flores. Crianças já nascem florindo o mundo e, enraizadas no seio familiar, um dia alguém achará uma de nossas flores e irá querer arrancá-la de nós. Um dia os pais precisam saber deixar seus filhos irem, pois ser pai é saber que nossos filhos são para o mundo e não somente nossos. Eles criarão asas como flores aladas e semearão outros caminhos e seguirão um dia suas próprias vidas.

Falei acima das fases, a adolescência, por exemplo, o que fazer com ela? Talvez seja numa dessas fases que os pais se sintam padecendo no paraíso, apesar de saber que o cardápio para padecimento de pais é enorme e ninguém iria ou irá querer estar na pele deste ou daquele pai ou mãe. Cada um recebe da vida aquilo que ela dá. Não se deve pensar nos filhos como castigos, mas como aquilo que foi possível ter. O mesmo se dá do ponto de vista de quem é filho.

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Para um jovem as vezes as coisas, o mundo, as regras não parecem fazer sentido e justamente por volta dessa época os hormônios atacam impiedosamente. É um dos momentos da vida que mais carecem de atenção. Jovens assim parecem funcionar como pequenas tempestades ambulantes num dia ensolarado. A conversa, sempre ela, deve ser usada como fonte paciente e refrescante num mundo cheio de incertezas e solidões. Nem tudo no mundo de hoje é solidão, porquanto ela pode inclusive ser percebida nas mais tumultuadas multidões. A solidão pode ser um momento de diálogo interior onde devemos fazer com que nos sintamos parte da natureza como plantas com raízes numa comunidade cultural.

Devemos nos lembrar de quem nem tudo possui seu lado ruim. Veja por exemplo os remédios amargos, tão eficientes quanto mais amargo é o seu sabor. Solidão não é ruim. É a vida solicitando a alma do jovem a refletir antes de errar. Sempre é possível aprendermos com o pensamento e não com a prática, pois pessoas não são experimentos científicos e operam num outro campo de gravidade diferente do de Galileu Galilei.

PersonalGarotaCogumelo

Enfim, o relógio do mundo na verdade nem existe. Se existe, num certo momento todos percebem que se lê histórias para colocar os filhos para dormir e, depois percebem que eles não dormem mais porque querem continuar acordados lendo.

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Esse nosso mundo é mesmo uma fábula, não é mesmo?

As ilustrações são de Sabrina Eras, ilustradora do interior de São Paulo.