Eu sou rio

Eu sou o que sou e pronto. Eu sou o que sorrio. Sou o que só ri. Sou o que sou e pronto. Atestado isso em mim, também constato que posso ser outros, mas que também os outros só podem ser os outros. Então, eles mesmos sendo eles mesmos, só poderão ao longo de suas estranhas vidas serem estranhos e alheios para minha maneira de ser, que muda sempre, e reciprocamente assim se dá tão módico fato.

Presto atenção nas árvores, nas montanhas, em como nosso pensamento esbarra em querer pintar telas com a tinta que carregamos dentro de nós em determinado momento de nossas vidas. Que sou eu se não eu mesmo? Tantas pessoas passam e o sol é ainda o mesmo. Ainda não inventaram outros sois.

Quero sorrir, mas o que sou não permite. Aquela frase de felicidade quero que lha deis a quem merece. A paz, a poesia, desejo que as rasgue e comece a guerra: para com tudo isso faça uma bola de papel e jogue no lixo. A guerra é presente e a paz não é reciclável. A poesia corre no meu sangue, pois a vida é sempre da cor de arrebóis.

Eu sorrio
sou rio
só rio

com você quero
rir do que sou
teu riso espero

sou o rio
mas em você navego
eres meu porto

seguro cais
caminho puro
de imensa paz.

Anúncios

Um rio sem margem

Inicialmente em algum lugar o rio tinha um início e se estendia desde seu início até a continuidade desse início.

Rômulo Pessanha (fanzine marginal)

Hoje venho trazer mais um post do blog skrautskrift (fora do ar). Pra escrever essa história me inspirei no conto do Guimarães Rosa “A partida do audaz navegante“, do seu  livro Primeiras Estórias.

Precisamente não me lembro de nada desse conto. Preferi ficar apenas com as maneiras de falar das personagens, e é claro que nunca chegarei aos pés de um Guimarães Rosa. Algumas palavras também tirei desse mesmo conto do autor.

***

 

Viajantes

Sinopse: duas crianças acostumadas a fazerem longas viagens espaciais acabam encontrando o planeta Terra em seu estágio final de deterioração e não há mais ninguém habitando o lugar antes azul e cheio de vida e que  hoje se encontra nas tonalidades ofuscantes das areias quentes do deserto do Saara, que é o que todo o planeta mais se parece agora. Ao fim da visita ao planeta, Lanai e Joris descobrem o verdadeiro tesouro da vida: o amor.

Ao amor e além.
Rômulo Pessanha (postado em 03/06/2016 no blogue skrautskrift: significa caligrafia em islandês)

Lanai: esse planeta é solidão, é tristeza total, só que do lado de fora da gente e em toda parte.
Joris: será que tudo sempre foi assim. Assim quente, sem ninguém, sem vida?
Lanai: acho que pode ser igual a nossa vida ou a vida das pessoas até encontrarem o seu oásis, um ponto final que se apresentaria aos nossos sonhos como imagem diáfana, real, impalpável como as areias deste inóspito lugar.
Joris: certamente a vida é como areia. É palpável, maleável gozo, instante de ventura e criação.
Lanai: jogaremos um jogo então?
Joris: iremos. E em que consiste?
Lanai: você seria um cavaleiro em busca de aventuras e eu seria aquela que cuida da paz, a jovem donzela das forças sagazes daqueles que fazem as pazes.
Lanai: então, que comecemos as escaramuças.
Lanai: mas que figura altaneira e impávida seria aquela a se aproximar do alto daquele monte de cinzas arenosas?
Lanai: sim, é a figura do destemido cavaleiro, afrontoso e aventureiro, nascido desde tempos primordiais de sua gênese imemorial para encontrar sua princesa linda e bela, a qual dedicará sua vida, e somente a ela ser leal, para viver em paz celestial esse amor se fará eternizado na forma de luz a brilhar, a viajar, mostrando que mesmo após, ainda haverá o depois e sucessivamente assim.
Lanai: Quem vem  altaneiro cavaleiro, lá? Ah! Sim! Morro abaixo, tu, cavaleiro, alto! Tremei!
Joris: sou muito conhecido o destemido e o desconhecido é meu prazer. Sangue nas vestes, suor nos cabelos emaranhados pelo tormentoso vento quando a ventar está, me direciono aos caminhos por onde há tormenta. Quanta vida jogada fora, vidas desperdiçadas em maneiras escaramuçadas. Quero a ventura e toda sua graça para que a vida seja luta, mas sem guerra inglória e sem desgraça.
Lanai: oh, dorado cavaleiro, conquistaste meu coração com tão honesto falar, belo, se elogio, antes seria tão lisonjeiro de o receber. Terminemos as guerras. Ninguém quer elas.
Joris: Lanai, veja, uma construção.
Lanai: o que seria?
Joris: veja essas figuras na parede.
Lanai: douradas.
Joris: e por trás das imagens das crianças aladas?
Lanai: não sei.
Lanai: venha, vamos ficar aqui fora, temos que ir embora já está ficando muito tarde. Até a tinta azul que coloquei no meu cabelo parece estar derretendo.
Joris: Eu gosto dos seus cabelos vermelhos, são tão bonitos, não sei porque você usa essa cor.
Lanai: é porque está na moda, você não entende. Todas as garotas estão usando agora.
Joris: Lanai, eu tirei isso da bolsa de minha mãe, quero que você use, que fique com você, lembrança de nossas viagens, uma tira de camurça, macia, no tom arenoso de nossa pele, solitária, acompanhante dos sutis viajantes, percalços na pele são os sentimentos do amor, penso eu.
Lanai: muito obrigada, Joris, delicadeza sua, mas sua mãe não notará?
Joris: não me importo, o mais importante é pensar em você.
Lanai: agora me sinto mais quente que essa areia. Venha Joris, tive uma idéia, quero me despedir deste lugar antes de irmos!
Lanai: Joris, fique do meu lado e contemple a luz branca que flui do alto desta abóbada, esta construção é maravilhosa, não acha? Pesando estar destruída e abandonada, é linda. Vamos embora.
Lanai: estou com medo!
Joris: eu estou aqui!
Lanai: porque estamos de mãos dadas?
Joris: acho que fizemos uma descoberta:*(observação).

 

*Observação: a partir desse trecho eu não consegui terminar a história.
Continua …

Amanhecendo

Uma vez me lembro de ter acordado e a manhã ainda estava a nascer.

Me ergui como um sol e o dia seguiu firme.

Era só mais um começo de dia de vida, enfim.

Era uma manhã amanhecendo. A manhã sendo eu e eu amanhecendo na vida que amanhecia e ainda amanhece e assim, como novidade permanece claro.

A manhã é sempre dia e eu sempre manhã e amanhã; a manhã e eu somos o presente e o futuro de nós mesmos.

A manhã é agora, amanhã, outra manhã e até no passado há manhã que acontece enquanto a gente cresce e a lembrança esvai enquanto nova manhã vem. As alvoradas nunca perecem.

A vida é poesia, alvorada das páginas, do pensamento é o dia. As noites são ideais para idéias. Iluminadas pela minha língua elas são a capa do livro escrito de dia.

Onde dia e noite estariam unidos?

Acordar esse mistério é o maior de todos os enigmas.

Na tal cidade, na tal época

Todos esperam conseguir em um dia aquilo que levam o ano todo destruindo. Aqui em Jerusalém não é diferente. Descobri muitas coisas interessantes. Uma delas foi quando estava caminhando e encontrei sem querer, enterrado na areia, um objeto feito de terracota, provavelmente de mais de dois mil anos atrás, segundo me disseram.
Trabalhar como médico numa das regiões mais tensas do mundo atual é muito cansativo. Toda hora são corpos e mais corpos de pessoas sendo enterrados vivas em suas próprias casas porque não tem pra onde ir pra fugir de uma situação perigosa pra quem espera viver em paz.
Estou aqui há seis meses e amanhã voltarei pro Brasil. Quero falar de Mariah, uma garotinha que conheci enquanto procurava crianças sobreviventes numa escola que tinha acabado de desabar. Quando a vi pela primeira vez ela estava banhada em sangue e poeira e gritava “salvem o Caleb! Ele ainda está vivo, eu sei, eu vi! Salvem o Caleb!”
Horas mais tarde conseguiram retirar o seu amigo e umas cinco crianças com vida no mesmo lugar apontado por Mariah. Essa garota me assustava um pouco e o que achava interessante nela é que nunca demonstrou nenhum sinal de cansaço, nem mesmo seus amigos falavam com ela. Como de costume fui dormir um pouco mais tarde depois de tentar jantar sem lembrar tantas mortes e corpos de pessoas passando gritando, ou fazendo silêncios pra tenta ouvir um possível pedido de ajuda, ou apenas o silêncio da morte.
Já no Brasil, levei algumas semanas trabalhando normalmente num hospital até que numa tarde, depois do almoço, enquanto conversava com uns colegas e alguns funcionários eu permaneci cochilando sentado num banco num dos corredores do hospital e estava quase adormecendo quando pensei ter ouvido uma voz de criança pedindo ajuda.
Me levantei calmamente e reparei que uma das portas num dos quartos estava aberta e fui verificar e tentar fechar. Levei um susto quando vi um colchão branco vindo em minha direção. O coloquei num canto e já ia fechando a porta quando escutei uma voz de criança vindo da sala. Fiquei com raiva, pois não era comum ficarem sozinhas em quartos de hospital. Então, quando estava quase fechando a porta, um enfermeiro me avisa de um paciente que estava tendo alguns problemas e notei então que alguém segurava a minha mão. Meus cabelos se arrepiaram imediatamente de um jeito que acho que descobri lugares de meu corpo que nem sabia da existência deles.
Pela fresta da porta semiaberta podia ver que alguém me observava. Olhei e constatei que se tratava de uma criança, provavelmente. Abri a porta e lá estava ela, a cena novamente vazia. Fiquei intrigado e já me esperavam em outro quarto quando decidi sair dali e voltar depois. Ao fechar a porta escutei novamente risadinhas de criança.
Naquele dia a tarde passou muito rápido e a noite veio sem avisar. Passar um natal ali naquele lugar não era a minha melhor opção, mas pelo menos tinha muitas pessoas, pacientes e ainda aquele ocorrido no fim da tarde estava me deixando impaciente como se todo momento alguém estivesse alguém me vigiando.
Quando a noite de natal finalmente chegou estava acabando de realizar um parto dos mais fáceis que já fiz na minha carreira. A criança nascendo parecia que só faltava pular no meu colo e me abraçar. A mãe felizmente sentiu pouquíssimas dores, mesmo sem anestesias como havia pedido.
Enquanto todos comemoravam voltei ao corredor onde ouvi as risadas de criança. Estava tudo calmo. Sentia uma sensação de alívio como se estivesse finalmente feito o meu melhor trabalho do dia. Desliguei a luz e me assustei com a claridade da luz  da lua entrando forte bem no meio do quarto como se fosse um holofote. Naquele dia o céu estava claro e passava bem de frente da janela daquele aposento.
Voltei ao quarto da recente mamãe do hospital e vi numa toalhinha escrito o nome “Mariah”. O bebê dormia, mas parecia sorrir pra mim, ficava apertando suavemente  sua própria mãozinha, uma mãozinha tão pequenininha que parecia que a recém nascida estava vibrando de alegria por ter acabado de ter nascido.
Na semana seguinte fui convidado pela ONU para voltar a Jerusalém e depois ir até a ilha de Saint Maarten. Antes, porém ainda em Jerusalém perguntei se alguém conhecia uma garotinha chamada Mariah, mas ninguém sabia me dizer, ou ninguém a conhecia.
Depois de acomodar muitas pessoas num avião da força aérea dos Estados Unidos, eu precisava verificar o  único hospital daquela ilha e deixar tudo fechado. As pessoas que estavam no avião iriam ser levadas pra Chicago e eu, após concluir essa missão retornaria pro Brasil. A ilha estava toda destruída por causa de um furacão. Fiquei um bom tempo observando a paisagem. Algum tempo depois notei algo caindo do céu. Caia lentamente e corri pra ver o que era. Era uma faixa branca, suja, provavelmente retirada de algum lugar pela força do furacão e, ao observar mais de perto, vi que estava escrito nela em inglês “muito obrigado, amigo”. Meus olhos se encheram de lágrimas e desde então eu acredito na vida cada vez mais intensamente e também que anjos existem.

Passarinhando o tempo

Sempre gosto de ler posts antigos de meus blogs deletados. Sempre costumo salvar tudo antes de deletá-los. A pequena história a seguir fiz pensando no desenho Hora de Aventura e, eu (Rômulo) me coloquei como personagem. Achei que ficou legal e engraçado.

*Postado no blog (desativado) skrautskrift (significa “caligrafia” em islandês) em 07/02/2016.

Que fala das aventuras de Rômulo e seus amigos Jake, Finn, Marceline, Princesa Jujuba, Rei Gelado, BMO, Bart Simpson, Eric Clapton em um dia normal enquanto observam um pássaro com atitudes muito suspeitas. 

Era uma manhã normal num bairro afastado do Centro do Rio de Janeiro.

6:00 da manhã

Rômulo: Ahhhhiii, que manhã ensolarada. (Rômulo fala enquanto se espreguiça lentamente na cama dando um bocejo demorado.)

Jake: E aí, Rômulo, sai dessa cama, vamos curtir tudo que há pra viver, vamos nos permitir, cara. (Jake surge no quarto de Rômulo falando como se estivesse quase querendo começar a cantar uma música do Lulu Santos.)

Rômulo: Ai, não Jake, acabei de acordar, não começa com Lulu Santos não, por favor.

Jake: Ué, Rômulo você leu as descrições, é?

Rômulo: Li.

Jake: acho melhor mandar parar, né?

Rômulo: É! Nada de descrição.

(Bem leitores, como eles não querem mais descrições, imaginem a cena vocês mesmos, vou aproveitar e curtir o carnaval, fui; au revoir, pessoal.)

Jake: E aí, que é que manda pra hoje?

Rômulo: Sei lá. Acho que vou passar o dia todo sem fazer absolut vodka.

Jake: Essa foi boa Rômulo, mas então vamos fazer o seguinte: chama o Eric.

Rômulo: Alô, Eric, aqui é o Rômulo, você já tá vindo, cara?

Eric Clapton: Sim, mas tem um problema de última hora; eu perdi minha bagagem e tô sem guitarra, tudo bem?

Rômulo: Tá, ok. O importante é a sua presença.

Eric Clapton: Falou! A ra ri lara la, layla, layla.

Rômulo: Jake, ele já tá chegando!

Jake: Rômulo, você viu onde está o mel pra passar no pão quentinho, adoro pão quentinho com mel e um café com leite, humm, delícia, sabe.

Rômulo: Jake, saca só o que tem ali do lado de fora pendurado no fio de alta tensão.

Jake: Parece que é um pássaro. Um black bird, meu irmão. E daí.

Rômulo: Nada. Só achei maneiro. Não é irado?

Jake: Eu não vejo nada de mais nisso.

Finn: Ué, Jake, você não sabia que os pássaros são muito medrosos?

Jake: E por que?

Finn: Por causa dos muleques como Bart Simpson. Eles pegam os seus estilingues e acertam pedras nos pobrezinhos.

Jake: Uau, que manero, vamos brincar disso também?

Finn: Não Jake, isso é errado.

Jake: Ah, sei, é que nem quando a gente tá na escola e tem aqueles caras querendo o dinheiro do nosso lanche, sabe como é, né.

Finn: É, mais ou menos isso.

Lisa Simpson: Alguém aí viu meu tubo de ensaio que vou usar hoje na aula de química.

Jake: Tá ali com o Rômulo, ele tá tomando café nele, ah, ah.

Rômulo: Então isso aqui não é um copo?

Lisa Simpson: Ahh, deixa pra lá.

Bart Simpson: E aí, otários; que que tem pra comer que eu tô com fome?

Finn: Segurem ele.

Bart Simpson: Hei, me solta.

Finn: Peguei o estilingue. Agora isso é meu.

Bart Simpson: Não tem problema; eu atiro com a mão, ah, ah, ah.

Rômulo: Vejam: chegou outro pássaro igual.

Jake: O que será que eles estão fazendo?

Rômulo: Olha só! O outro passarinho que chegou e o que já estava ali estão esfregando o bico um do outro.

Finn: Acho que eles estão namorando. Vi isso num filme uma vez. Toda vez que eles tocam nos bicos um do outro acontece um fenômeno mágico e de repente surge um ovo dourado, de prata.

Rômulo: Até a parte que você falou ovo dourado pensei que você fosse terminar dizendo ovo de ouro.

Finn: Pois é né, não é legal.

Jake: É a história mais absurda que eu já ouvi na minha vida.

9:45 da manhã

Jake: Caramba Rômulo, tá começando a ficar quente aqui fora. Vamos todo mundo pra debaixo daquela árvore.

Rômulo: Qual tipo de pássaro será esse esse?

Jake: Ih, olha lá, ele vai voar.

Rômulo: Ah, pelo voo dele dá pra ver que é um beija-flor.

Finn: Vamos perguntar mais para o BMO.

BMO: Sem problemas:

beija-flor, também conhecido como colibricuitelochupa-florpica-florchupa-melbingaguanambiguinumbiguainumbi,guanumbi[1] e mainoĩ[2] , é uma ave da família Trochilidae e inclui 108 gêneros. Existem 322 espécies conhecidas. No Brasil, alguns gêneros recebem outros nomes, como os rabos-brancos do gênero Phaethornis ou os bicos-retos do gênero Heliomaster. No sistema classificativo de Sibley & Ahlquist, a família Trochilidae integrava uma ordem própria, a Trochiliformes. Entre as características distintivas do grupo, contam-se o bico alongado, a alimentação à base de néctar, oito pares de costelas, catorze a quinze vértebras cervicais, plumagem iridescente e uma língua extensível e bifurcada.

O grupo é originário das Américas e ocorre desde o Alasca à Terra do Fogo. A maioria das espécies é tropical e subtropical e vive entre as latitudes 10ºN e 25ºS. A maior biodiversidade do grupo encontra-se no Brasil e no Equador, que contam com cerca de metade das espécies conhecidas de beija-flor. Os troquilídeos estão ausentes do Velho Mundo, onde o seu nicho ecológico é preenchido pela família Nectariniidae (Passeriformes).

Finn: Mandou bem, BMO.

BMO: Ah, que nada, eu só pesquisei na internet e achei isso na wikipédia.

Bart Simpson: Rômulo, o Eric Clapton chegou.

Eric Clapton: Rômulo, perdi toda minha bagagem, mas achei essa caixinha de fósforo pra gente batucar um pagodim, sabe?

Rômulo: Esquenta não Eric, o Jake pode se transformar numa Gibson, se você preferir.

Eric Clapton: Então tá.

12:30 da tarde

Jake: Né por nada não gente, mais a minha barriga tá começando a gritar.

Rômulo: Gente, vamos montar o tapete pro pique nique.

Jake: Eu posso me transformar em tapete enquanto eu como?

Finn: Não jake, a comida é pra todo mundo.

BMO: Oi, Marceline.

Marceline: Ahh, que fome, acho que vou cantar essa canção; vai na rua pega um rango e come; mastigando de montão; tudo isso só porque eu tô com fome; e cantar me deixa com mais fome; acho que eu comeria um dinossauro, uh, uh, uh; ou então, me contentaria em morder aquele pássaro, passaruh ,uh, uh, pássaruhhh.

Finn: Gente, segura a Marceline, ela quer pegar o beija-flor.

Jake: Peguei! Tá presinha, presinha.

Marceline: Me solta, seu monte de massa amarela. Arrrgh.

Rei Gelado: Princesaaa, Jujubaaa, minha linda, Princesa, Jujuba.

Princesa Caroço: Caroço-aranha, caroço-aranha, muito caroço e nada de aranha.

Rei Gelado: Credo, que música horrível, tome isso.

Rômulo: Todos nós te agradecemos, por nos livrar da temível cantoria da Princesa Caroço, Rei Gelado.

Rei Gelado: Ora, Rômulo, não foi nada, eu tava de saco cheio da voz dela também.

Rei Gelado: Alguém aí quer um sorvete? Eu tenho de chocolate e de morango. Se quiserem calda de chocolate ou de morango é só pedir. E se quiserem morango ou chocolate eu também tenho. É só pedir. Também tenho morango com chocolate, he, he.

16:55 da tarde

Princesa Jujuba: Gente, eu fiz uma descoberta sobre uns pássaros. Eles são chamados de beija-flor. Segundo as minhas pesquisas …

Rômulo: Ei gente, olha lá, o beija-flor está voando de novo. Mas porque ele não sai do lugar. Ele parece estar tão sem fôlego, meio abatido.

Princesa Jujuba: Rômulo, é sobre isso que eu vim falar com vocês. O beija-flor …

Eric Clapton: Saberia meu nome, se o visse aqui no paraíso? … 

Enfim, a tarde caía enquanto todos cantavam …

Então …

Jake: Rômulo, você está bem? É por causa daquela garota, né?

Rômulo: Acho que sim. Ela desapareceu sem deixar vestígio, fico pensando se foi algo que fiz, sabe, as vezes as pessoas e até mesmo nós esperamos atitudes de todo mundo, talvez eu a tenha decepcionado de alguma maneira …

Jake: Eu sei como é isso, cara. Você precisa de um tempo, né? Eu sei bem como é isso, passei por umas situações assim antes de conhecer a Lady Arco-iris.

Eric Clapton: Rômulo, o amor pertence ao paraíso. Se eu pudesse alcançar as estrelas traria tudo de bom para o mundo.

Rômulo: Eu sei, acho que tudo vai ficar bem, só não queria que ela desaparecesse.

18:14 da noite

Os beija-flores continuam em pé no fio de energia elétrica. Todos continuam observando e cantando ao som das músicas de Marceline e Eric Clapton.

Um vento macio, suave e leve, porém, volumoso, afaga cada um como se estivesse participando desse momento de união. A noite cai e a esperança continua no pensamento e coração de cada um deles. A vida é uma das coisas entre o céu e a terra. O amor é a chave que desvela esse mistério contido em nós.

Pedidos músicais

Princesa Jujuba: Gente, eu adoro Dream a little dream of me do Louis Armstrong.

 

Jake: Eu quero  ouvir a sexta pastoral de Beethoven, adoro relaxar por aí, ouvindo essa música.

 

Rômulo: Eu queria Tropicália e “geléia pra geral”, he, he.

 

Bart Simpson: E eu quero pedir a música do cara dançando.

 

BMO: Oba, agora é minha vez de pedir uma música. Eu quero ouvir a música do Sébastien Tellier, Aller vers le soleil.

 

Beija-flor: Eu também quero a música do Natiruts, Presente de um Beija-flor.

 

Rei Gelado: Eu queria pedir a música Turn back time, por favor, da Aqua.

 

Finn: Eu quero a música da M.IA.

 

Eric Clapton: Imagine …

 

Princesa Caroço: Gente, eu sou muito romântica e eu gosto da música Hunting girl, do Jethro Tull.

Sonora idade

Hoje eu queria apenas digitar algumas palavras e dizer que escrever é como falar com amigos. Só que quando terminar de escrever, o que se passou foi não somente o ato mecânico da escrita, mas o da conversa com possíveis amigos. Amigos que estarão distantes de quem escreveu.

Escrever é um ato. Encenamos para nós. Somos nossa própria platéia. E no fim, as cortinas e nenhum aplauso. Vivemos e não percebemos que a vida é a vida de relacionamentos.

Ouvir um disco de vinil e adormecer ouvindo o arranhar da agulha e acordar numa tarde quente de verão por causa de um trovão que mais parecia um grito. Em seguida a chuva começa a cair toda grossa. É possível ouvir cada gota caindo num chão de terra molhada e o som se misturando ao ruído da agulha na vitrola. O cheiro da terra molhada, tal qual o cheiro da pele suada. Ainda há música? Sim alguns pássaros cantam, indiferentes e outros voam para longe.

O verão e seus trovões. O inverno e seus dias de chuva. Dias de chuva, dias chorosos. Porque frios, despertam o abandono em nós. O calor é a impaciência do corpo na natureza. O calor é um erro e um tesão. A primavera é uma benção. As flores mostram que mesmo lágrimas frias da manhã saudosa podem amenizar a dor com a cor.

O outono é um abraço. Um abraço num entardecer gostoso como voar num céu de nuvens douradas. As estações, os gestos, por onde andam, perguntam-se os que foram abandonados. Estariam os afetos e carinhos soltos por aí, como pássaros fugidios, medrosos, ou como abutres que querem comer o que resta de puro no zelo daqueles que cuidam de quem ama?

Coloco outro disco para ouvir. Volto a sentir a música, outra música e outra natureza em mim se agita, a vida em fim.

Melinda

Não reparei. Entrei no ônibus que ia para Ouro preto e não me interessei por mais nada. Me lembro de alguém sentar do meu lado exalando um cheiro de perfume de mulher. Quando olhei era só uma dessas adolescentes que acham que vão mudar o mundo pintando os cabelos de roxo, colocando, melhor dizendo, espetando, não, melhor ainda, fazendo uma espécie de acupuntura com tantos metais encravados sabe-se lá até em quais partes de seus corpos. E as tatuagens? Nem me fale, aliás ela não tinha. Pelo pouco que pude perceber. Mas meu senso de Sherlock Holmes não teve dúvidas, ela tinha uma libélula enorme tatuada entre o fim da nuca e o começo das costas.

Quando percebi essas coisas numa única pessoa sentada do meu lado eu quase dei um riso bem alto, mas me contive. E os índios, eles também ornamentam seus corpos? Acredito que essas coisas, nos indígenas, tenha ou possa ter outros significados, outras vibrações. Ah, sim, me lembrei que faltava uma coisa: ela só faltava começar a se virar para mim e me dizer que é feminista. Ainda bem que isso não aconteceu.

Aconteceu outras coisas. No meio da viagem percebo que ela já devia estar a pelo menos meia hora com a cabeça apoiada no meu braço. Pensei em desfazer isso, mas uma placa, diferente das outras nas estradas dizia “você está chegando lá”, me distraiu e, que bom, eu pensei, e fechei os olhos e dormi. Sonhei que a garota sentada ao meu lado no ônibus era ainda uma garotinha. Ela me olhava espantada com olhos de quem quer saber se já estamos chegando. E eu lhe respondia “Calma, menina. Não estamos mais em Israel”. E ela dormia, eu dormia, a guerra porém, não.

Quando acordei o ônibus estava vazio. Olhei pela janela e não vi ninguém. Ao me levantar reparo numa bolsa grená com duas fivelas de couro, uma de cada lado, na parte da frente, e percebi que havia um óculos saindo de uma abertura bem ao centro. Do lado dessa bolsa uma necessaire. Uma necessaire azul claro. Pensei no inusitado na combinação das cores que era bem engraçada. A bolsa e a necessaire eram países? Ou poderiam ser um casal? Um casal de irmãos que brigavam muito? Pensei brincando com as palavras “bolsas que são países que são irmãos que não fazem as pazes.” Esperei por um bom tempo no ônibus e fiquei aguardando que algo acontecesse. Quebrando o silêncio falei bem alto “bom, então é isso, vou sair daqui” e me assustei com o som da minha própria voz quebrando um silêncio que parecia a coisa mais frágil do mundo de ser quebrada.

Chegando na porta do ônibus percebi que ela estava fechada. Dei alguns golpes nela com minhas técnicas de Reiki associadas ao Kung fu. Olhei em volta e nada, nem ninguém. Me perguntei onde eu estava e não soube responder. Comecei a andar pelas ruas de paralelepípedo. Comecei a cantarolar “para lele lê, pipe dodo dô” e percebo passos atrás de mim. Me viro e os passos parecem que são de alguém correndo em minha direção. Quando o som dos passos se aproximam de mim como se fossem de alguém invisível, tudo silencia. Sinto um vento passar por mim como se fossem longos cabelos de mulher perfumados por incenso de aroma indefinível e saboroso.

Em volta percebo janelas coloridas, casas de épocas antigas e me pergunto “onde estará todo mundo?” Passando por uma rua, uma igreja estava no centro atrás de pequena praça. Fico ali em frente dela e aproveito para me deitar. Não tentei entrar por que tudo parecia deserto. Diante dessa situação era mais seguro, pensei, ficar do lado de fora. Alguns instantes se passaram. Nuvens cinzas no céu azul se desfaziam e se refaziam e iam e eu ficava. Eu ficava do lado de fora da cidade histórica de Ouro Preto.

Ainda de olhos fechados percebi um ruído de porta velha se abrindo. Aquele ruído de dobradiças de castelos antigos e pavorosos. Estava tão cansado que fiquei assim, em estado de olhos um pouco abertos e um pouco sonolento até que comecei a ouvir um grunhido. Deixei o sono de lado e com certa dificuldade eu tentava me levantar. A cada movimento que eu fazia para me levantar o som abafado, como o de um cão feroz a acompanhar meus movimentos e que parecia estar próximo e prestes a atacar, mas eu não sabia onde. Ouvi a porta da igreja bater atrás de mim como se estivesse aberta. Levei um susto enorme. A porta sempre esteve fechada desde o momento que cheguei ali.

Então, pensei em voltar para o ônibus. Chegando numa esquina percebo a sombra de algo vindo na minha direção e rapidamente me escondo num vão de uma porta de entrada de uma das casas. O que vi foi horrível! Um cachorro negro do tamanho de um fusca caminhava lentamente até que pareceu farejar algo no ar. Levantou a cabeça, fungou o ar em volta e olhou na minha direção. Corri o mais rápido que pude. Ao olhar para trás, depois de algum tempo correndo, não o vi mais. Ninguém me perseguia. Quando olho novamente para frente, lá estava ele, diante de mim. Deu um salto na minha direção e não vi mais nada. Quando acordei, quase dei um pulo até o teto de tanto medo que ainda estava, mas eu já estava noutro lugar. Ao meu lado estava ela, a garota do ônibus.

Ela me disse “olá, eu sou Linda, prazer em conhecer!”, “qual é o seu nome?” “Natanael,” respondi, ainda meio confuso e sonolento. Ela ainda prosseguiu dizendo, “a propósito, agradeço por trazer minhas bolsas. Agora ela são suas. Você vai precisar. E use sempre o chapéu que está ali do lado delas, tudo bem?” Ao terminar de dizer essas coisas, ela foi indo em direção a porta e meus olhos me levavam novamente para a direção de mais um sono profundo. Revi novamente as nuvens que se desfaziam em cachorros cinzas num céu escuro como quando fechamos os olhos e dormimos sem saber se é o sono ou se a causa da sonolência é o desespero por manter os olhos acordados nesse mundo caótico. Os olhos podem estar abertos, mas não vou querer estar vendo. O mundo que quero ver farei com as minhas mãos. Mãos incansáveis que levantarão palavras indeléveis como paralelepípedos numa rua com pessoas sorridentes e felizes. Rua com crianças alegres correndo descalças com os pés na terra e não em escombros, ou nas ruínas de suas próprias casas. Revi as nuvens, as placas dando boas vindas aos que chegavam, a garotinha e menina do ônibus, uma guerra confusa e, após algum tempo, finalmente dormi.

Continua …

E aí pessoal, gostaram? Se sim, comentem, deixem sugestões sobre o que deve acontecer no próximo capítulo.